Aprendendo sobre estilo com Dudu Bertholini

por Alexia Chlamtac

Conforme falei nesse post, ontem teve um workshop com o Dudu Bertholini, estilista da Neon. Promovido pelo Instituto Rio Moda e parceria com a Kalimo. O workshop com título “Imagem de Moda”, deveria ajudar  todas (o único macho presente, era o fotógrafo) a construir imagens, a entender e saber como fazer um trabalho de styling.

A primeira imagem de estilo que identifiquei no workshop, foi a figura do próprio Dudu Bertholini. Estava com um de seus caftans belíssimos, uma sapatilha colorida; em um dos braços, pulseiras de madeira, no outro, pulseiras coloridas; um colar com conchas e o símbolo da Neon; um brinco comprido em apenas uma das orelhas. Ali tínhamos um exemplo único de estilo, o mix de texturas, cores, estampas, o tal do hi-lo.

Dudu contou brevemente a história da moda no século XX, algo que todas ali já conheciam, mas Dudu contou de maneira diferente, animada e contagiante. Explicou as marcas de cada uma das décadas e o que ele achava de cada uma delas. Lembrou-nos que hoje em dia não pode-se dizer que o estilista “x” criou a peça “y”, tendo em vista que a última peça realmente criada foi a mini-saia, na década de 60. Segundo Dudu, a moda não é mais o agente transformador e sim a tecnologia. Disse ainda, que a Apple é a nova Chanel, que a Apple cria. “Criar é delicado (…) Só a Apple cria, a moda não cria.”.

Dudu falou do privilégio ao acesso de informações que todos têm hoje em dia: “A informação que a blogueira de 12 anos tem é a mesma que nós temos, que a Anna Wintour tem”. E com isso, a tecnologia transforma, faz a muda mudar. A informação, dos anos 90 pra cá, foi pulverisada, de forma caótica, mixada. E com isso cada um tem que ser um pouco stylist. A avalanche de informações é gigante e com isso, temos que aprender a selecionar o que nos interessa, a fazer nossa própria curadoria.

Nos anos 2000, tudo foi descontruído, começamos a fazer remixes de todas as tendências. Temos mistura de décadas em um único desfile, mistura de tendências. São tantas informações num único desfile, numa única temporada, que não existe mais certo ou errado na moda.

E com tantas tendências e nada sendo criado, a função do estilista é ter uma identidade, fazer com que o cliente se identifique com aquela identidade. E com o passar das temporadas, essa identidade deve ser afunilada e aprimorada, isso é o que forma um grande estilista.

Como nada mais é certo ou errado, pra que existem as tendências? Para gerar consumo. A moda não dita o que você tem que usar, ela te dá ideias, dali pra frente é com você, você é quem vai inovar. São ondas e pensamentos comuns. E para Dudu, não faz sentido dizer que uma cor ou que determinada peça saiu de moda nos tempos atuais. Ele diz também que, para ele, talvez, o “errado” seja a falta do hi-lo, do mix, do ruído.

Dudu aproveitou para pontuar uma questão muito importante, a diferença entre stylist e styling. Styling é a criação da imagem de moda, e stylist é o profissional que realiza esse trabalho. Diferença óbvia, mas que ainda gera muitos erros e confusões. O stylist dá o tom trabalho e é um profissional multifuncional, podendo atuar em diversos campos: editoriais, desfiles, catálogos, curadoria, consultoria, publicidade/cinema, trabalhos pessoais. E em qualquer um dos campos o principal é entender e conhecer o cliente. O stylist deve maximizar as ideias da coleção. A edição deve ter ritmo.

Ao trabalhar com desfiles deve-se entender profundamente o seu cliente, o que ele quer e o propósito dele. E nesse momento, é primordial que o stylist entenda que ele não é o principal ali, ele é apenas um coadjuvante, o mais importante deles, mas ainda assim um coadjuvante. O stylist não pode se sobrepor à marca ou ao estilista. Além disso, possui uma linguagem diferente do editorial.  Num editorial, existem clientes pagantes com peçuas para serem usadas naquele editorial. A magia pode ser colocada de forma mais ampla. Além disso, o stylist vai cuidar da equipe toda, fazer com que haja compromisso entre eles (fotógrafo, maquiador, modelo, assistentes). Num catálogo, o profissional deve evidenciar as peças e nesse caso, principalmente, o cliente é tudo. Você não pode usar nenhum outro produto que não vá ser vendido na loja para não gerar confusões futuras. Um catálogo é diferente de um editorial, o catálogo é unicamente comercial e o editorial apresenta ao consumidor as tendências. Com trabalhos pessoais, cada um tem que entender o seu diferencial e apostar nisso, valorizar o que você tem como arma. Usar tudo o que você sabe no seu trabalho (arte, história, fotografia, costura, tricô). Como Giorgio Armani, que era médico e usou a anatomia para criar roupas que mostrassem a identidade do homem europeu. Dudu deu um incentivo à todas nós:” nada se sobrepõe a uma boa ideia. Transformem o banal em especial”. Disse também que o olhar é mais caro que a técnica e devemos perseguir um objetivo.

A moda tem dois lados, o banal e o antropológico. Deve-se ter cuidado com o lado banal abandona e resgata as pessoas de forma promíscua. O que você fizer tem que ser por você, enquanto isso não acontecer você não vai estar pronto para receber aplausos ou vaias. O sucesso é uma onda como a moda. A realização é pra vida toda, como o estilo.

Ao construir uma imagem, deve-se analisar e compor linhas do corpo, de composição. Criar formas. O stylist é 50% criatividade e 50% diplomacia.

“Não mascare, não enfeite um look, fica bobo. Cada acessório tem seu peso.”

“Nadar contra a corrente, mas sempre em frente.”

 

 

Anúncios