Fashion Rio e SPFW, uma análise nada breve

por Alexia Chlamtac

Vocês devem achar que eu sou uma maluca, com algum parafuso a menos. Em tempo, onde em época de semana de moda todos os blogs de moda se empenham em conseguir cobrir e comentar todos os desfiles, eu não teci nenhum comentário. Pois bem, agora vocês terão o tal comentário, e preparem-se, pois é grande. E como é um desabafo, quem não gostar, não precisa ler até o fim, galera, é só ler outro post e isso não falta aqui…

Confesso que acompanhei mais desfiles do Fashion Rio do que da São Paulo Fashion Week, mas não que a semana de moda carioca tenha sido melhor, longe disso. Perdi alguns dos desfiles por causa da viagem e cheguei no dia em que a SPFW estava começando, mas nem me dei ao trabalho de ver fotos dos desfiles. Vi de um ou outro.

Não sou uma profunda conhecedora da história da moda no Brasil, infelizmente, mas pelo que sei, o setor chegou tarde ao país. Sendo assim, o país seria teoricamente atrasado em relação à países como Estados Unidos, Inglaterra, França e outros, e não é pouco atrasado, não, é muito atrasado. E quando algo ou alguém está atrasado, deve-se correr para minimizar esse atraso, deve inventar maneiras surpreendentes de alcançar seus concorrentes. E isso, dificilmente é visto.

Nessa temporada, vi alguns jornalistas sérios e que nadam contra a maré poluída, felizmente, reclamando. Porém, o que é reclamado é de copiarem as semanas de moda internacionais. Quando não poderiam se esquecer de comentar que nem para cópia os estilistas brasileiros andam servindo. É obrigação dos brasileiros (estilistas, fashionistas, jornalistas, consumidores etc.) lembrar que o Brasil é um país extremamente quente, até no inverno, e que os países que ditam as tais tendências são frios até no verão. Portanto, a moda nacional não pode copiar as semanas internacionais. Primeiramente, por uma questão climatológica. Analisando um pouquinho mais, é possível perceber que os países que ditam moda, não conseguiram esse “status” de ditadores da moda por copiar uns aos outros e sim porque cada um deles possui suas próprias características. Um entendedor de moda, analisando desfiles, consegue dizer de qual país é, e em muitos casos dizer até qual o estilista. No Brasil, é possível diferenciar os estilistas entre si, mas dificilmente será distinguido de outros países, destacado por característica própria. E essa realidade de “cópias” não é de agora, vem acontecendo há muitas temporadas. E, infelizmente, existem marcas menores que possuem a tal da “identidade própria”, mas não fazem parte do line-up do Fashion Rio e muito menos da São Paulo Fashion Week. Algo observado por mim, é que numa tentativa de criarem uma característica própria, os estilistas começam a copiar peças de suas próprias coleções passadas.

Bastaria que os estilistas copiassem, já seria erro suficiente, mas não, eles insistem em continuar aumentando a lista de erros. Os estilistas cismam em continuar atrasando desfiles. As pessoas que estão trabalhando nas semanas de moda, não estão ali para assistir apenas ao desfile do estilista “x” ou “y”, geralmente vão para assistir todos ou a grande maioria. Portanto,em tempo de Fashion Week a correria é grande, o tempo é mínimo, os minutos de descanso não existem, e os atrasos geram uma bagunça numa agenda toda cronometrada. Aquelas pessoas ali presentes – me refiro a jornalistas, fotógrafos etc. – não são escravos, são seres humanos, que acabam tendo como pausa apenas os momentos em pé, ou sentado no chão, da fila de um desfile. Estendendo um pouco mais a lista de erros, existem marcas que contratam péssimas assessorias, que ao invés de ajudarem só atrapalham, e na temporada seguinte, ela estará de novo assessorando a marca em questão.  Marcas como a Colcci, têm o nível de criatividade caindo cada vez mais, e para que os “expectadores” não notem essa queda, contratam atores, contratam socialite americana que desfila como um cavalo trotando, tudo para que o foco seja em celebridades e não na coleção. A Bienal contou com a presença, no dia do desfile da Colcci, de pré-adolescentes que estavam ali apenas para conseguir um clique do Ashton Kutcher. Mas peraí, não era um evento de moda? Até onde todos sabiam, sim, mas estava mais com cara de pré-estréia de filme. Uma marca desenbolsa grande quantia pra trazer essas celebs para seu desfile, e as tais celebs atrasam em uma hora. Fotógrafos vaiam. O erro é dos fotógrafos ou dos famosos que estão atrasados a uma hora? O erro é do casal, mas é óbvio que a culpa cai sobre os fotógrafos, que são chamados de sem educação. Ashton Kutcher pode ser um homem extremamente bonito, mas ele não tem tanta fama assim no Brasil. E sua esposa, Demi Moore, há tempos não emplaca um filme, sinceramente não me recordo de quando foi seu último papel de sucesso. Portanto, não houve motivo para tamanha confusão do público, mas isso não é assunto para esse texto.

Agora, esqueçam um pouco a criatividade dos estilistas, pensem na organização dos dois eventos, e dos eventos paralelos também. São eventos que geram investimentos altíssimos, que geram lucro muito alto também, e juntando todo o dinheiro envolvido não pensem em milhões, pensem em bilhões. O setor têxtil é um dos mais importantes da economia brasileira. Sendo assim, deveriam ser eventos meticulosamente organizados, mas não. A imprensa é quem vai propagar aquelas informações, quem vai ajudar a mover esses bilhões então, as condições de trabalho devem ser no mínimo, boas, mas não é o que acontece, mais uma vez, erros. Não é abastecida 24 horas de comida, e quando me refiro a comida é algo que seja capaz de segurar um jornalista em pé por horas. Focando na SPFW, que é o maior evento de moda no país e o que mais atrai as mídias lá de fora: as condições de trabalho da imprensa nacional são péssimas, tendo em vista que enquanto a imprensa internacional tem cadeiras acolchoadas e macias sobrando, a imprensa nacional tem poucas cadeiras duras que são disputadas no tapa, e não é brincadeira. E aí perguntam: por que a imprensa nacional não usa o espaço sobrando da internacional? Simples, porque vem um segurança mal educado, tirando a cadeira da sua mão dizendo que é só para a imprensa internacional e se você perguntar se deve trabalhar então, no chão, não tenha dúvidas, ele responderá que sim. E ah, o sinal wi-fi é péssimo, falta gravíssima em tempos atuais. Nesse quesito, não nego que o erro é de quem organiza, que na hora em que “monta” o espaço, sabe exatamente quantos estão credenciados, e algumas cadeiras (acolchoadas) a mais, não é prejuízo (financeiro) pra eles. A imprensa internacional ajuda a divulgar e a inserir o país no mundo, mas é a imprensa nacional quem informa os consumidores, os brasileiros, portanto imprensa nacional também merece atenção e conforto. E pelo que vocês já leram, já entenderam que nenhum dos “vilões” aqui comete apenas um erro, portanto vamos a mais um erro dos organizadores, os seguranças: todos muito grosseiros. Ali dentro só existem bons profissionais, gente bem estudada e entededora de bom português então, se falarem com educação, eles vão entender sim o recado. Conclusão: o grupo Luminosidade, responsável pela organização, poderia instruir seus funcionários a serem ao menos bem educados. Agora pense em convites: se você tem um blog com muitos acessos, não estou falando de mim em momento algum, que fique claro, você faz parte daquela massa formadora de opinião, portanto você merece além dos convites, a credencial de imprensa. E por incrível que pareça, é mais fácil um blog pequeno conseguir credencial do que convites. Voltando aos convites: eles são limitados, faz parte da realidade, sendo assim devem ser bem selecionados, mas aí existe aquele amigo do pessoal que trabalha na marca, do vendedor da loja, da assessora de imprensa, a cliente vip da loja e por aí vai, só que essas pessoas vão acabar, bem ou mal, tirando convites da imprensa, aí a coisa começa a complicar, esse problema não é da organização é da assessoria de imprensa na marca. Não digo que os consumidores devem ser excluídos de desfiles e muito menos que qualquer veículo considerado imprensa, mereça convite. Acredito apenas que deva existir uma separação, que sejam feitos dois desfiles ou dois eventos diferentes, um para imprensa e outro pra convidados, clientes etc. E agora, vou falar de blogs, quando um blog pede um convite para um desfile, primeiro deve ser analisado se o blog tem muitos acessos ou não (e é só ver o número de comentários), eliminados os blogs grandes, deve ser analisado o conteúdo dos pequenos (ler cinco posts já é suficiente para saber se a blogger em questão produz textos com conteúdo produtivo), e por favor, o português. Se alguém vai transmitir uma informação, o português deve ser no mínimo aceitável e teve blog com erros fatais de português conseguindo convite pra muito desfile. E de repente, você entra na sala de desfile e vê até artista da globo na primeira fila gravando novela. Pessoal, não é hora nem momento. Se os convites são poucos, deve-se haver um mínimo de seletividade.

E para terminar (amém!), acredito que um dos maiores responsáveis por esse caos que se transformaram as semanas de moda (e a moda), são os jornalistas, me refiro aos grandes jornalistas, das revistas importantes, dos portais super acessados, das grandes blogueiras, dos formadores de opinião, que comentam e elogiam esses desfiles, ignoram os problemas e fingem que é tudo lindo e maravilhoso, transmitem um glamour que na realidade, não existe. Os jornalistas, tem o papel de elaborar críticas, papel não exercido, quando as críticas passarem a ser elaboradas por pelo menos, a maioria das revistas, os consumidores passaram a olhar a realidade com olhos bem abertos, exigiram mais dos estilistas. Lembrem-se: a população precisa se vestir, de algum lugar essa roupa vai continuar saindo, a não ser que a própria população passe a lançar tendência: o nudismo. Os jornalistas também seriam beneficiados com essas mudanças, porque a partir das melhorias geradas: organização, diferencial, identidade própria e todo o resto citado anteriormente, a moda brasileira será vista de maneira melhor, aumentando a inserção no mercado mundial, aumentando os lucros e aí, aumenta junto a visibilidade do trabalho deles, com isso melhoram as condições (e o salário). Só que o brasileiro tem um defeito grave: ser adepto do comodismo, da facilidade. E enquanto esse comodismo e facilidade não acabarem, a coisa não vai pra frente. E quando for, ainda vai demorar muitos e muitos anos até que a realidade do país mude.

 

Quem leu até aqui, ganhou o meu carinho, hahahaha. Me perdoem pelo desabafo.

Inspirado em: Considerações sobre uma temporada sem tempero, da Carla Lemos para o Modices, blog dela. Merece ser lido e relido!

 

 

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