Magreza, eu sofri desse mal!

por Alexia Chlamtac

A cada dia que passa as modelos estão cada vez mais magras e mais altas. Com o advento do photoshop a situação das meras mortais com corpos normais fica cada dia pior. As mulheres colocaram dentro de suas cabecinhas que para ser poderosa, linda e feliz, precisa alcançar aquela magreza.

As modelos se cobram cada dia mais, porque as marcas contratantes exigem corpos de crianças desnutridas da África, elas sofrem. Em época de desfiles, algumas passam a semana a base de alface, mel e água, isso é sério. Muitas fumam devido ao estresse e principalmente, pelo cigarro causar inibição do apetite. Em tempos assim, é admirável termos uma top como Lara Stone, que usa tamanho 38, assume suas curvas, tem um um espaço entre os dentes, beleza exótica, se aceita do jeito que é e nada faz para virar um graveto.

A indústria da moda está começando a se conscientizar do mal que essa obsessão pelo peso causa, que daqui as modelos estarão todas mortas e ninguém vai desfilar, haha. O número de modelos que desmaiam em backstages é alto, o mundo acha que vida de modelo é só glamour, mas até conseguir status é muito sofrimento. Já temos as modelos plus size fazendo sucesso, Tara Lynn já fez um editorial para a revista Elle francesa. Porém, a maioria ainda é das magrelas. Já existem revistas apoiando a causa contra o photoshop, mas ainda é muito pequeno o movimento. O photoshop arruina a mente das mulheres no mundo. O problema não é o programa de correção de imagem, a ideia é até muito útil no meio, facilita e muito a vida de fotógrafos, mas o uso exagerado dele, como tem ocorrido, está detonando corpos e mentes femininas.

Eu sei que esse é um assunto que já está super batido, toda hora lemos algo assim nas grandes revistas, o problema é não muda nunca. Eu resolvi falar sobre esse assunto aqui, porque eu já tive bulimia e anorexia, por muito tempo eu imaginei que a culpa fosse só do estresse, depressão, mas não. Eu sempre tive uma rejeição muito grande ao meu corpo, eu tenho muito quadril, em cima uso “p”, às vezes “pp”, mas embaixo o negócio pega, o 38 não me larga e isso sempre me levou a uma grande neurose. Sempre fez com que eu me achasse gorda, eu vomitava, vomitava cada vez mais, não passa um dia sem vomitar e foi assim por alguns meses. Hoje, com muito tratamento, eu vejo que em muitas vezes, eu forcei sim, mas era tão inconsciente e tão normal pra mim, que na minha cabeça aquilo não era forçar. Quando eu vomitava, sentia alívio, sentia o estresse indo embora, os problemas pessoais, aquela sensação de fraqueza após o ato virou um vício. É absurdo dizer isso, mas eu achava tão estranho quando eu não colocava tudo pra fora, me sentia pesada, alguma coisa estava errada.

Não comer, quase desmaiar de fome, era um pequeno preço, eu não precisava comer, pra quê? Com o tempo, a situação foi ficando mais grave, eu comia e não conseguia não colocar pra fora, eu comecei a ter deficiência de vitaminas, desenvolvi problemas no meu sistema respiratório. Fui parar na emergência de um hospital com muita luta dos meus pais porque eu não conseguia comer, só vomitar. Eu cheguei a 44 quilos. E me dava ódio, eu estar pesando tão pouco e ainda estar no “36”, amigas minhas pesavam mais que eu e usavam menos, por que eu tinha que usar 36? Eu comecei a ver que mesmo que pesasse 20 quilos, ia continuar tendo quadril, não era uma questão de escolha minha, era o meu corpo. Eu continuei sem comer direito por algum tempo, eu bem que queria, mas não conseguia. Eu ia ao Mc Donald’s e passava, eu queria comer coisas gostosas, chocolate, sobremesas, mas tudo aquilo me fazia mal, eu não aguentava. Eu começava a suar frio, a tremer, a tossir e via que ia voltar. Em julho, eu passei 15 dias fora de casa, com a minha madrinha, o estresse todo não estava mais comigo. Eu comecei a comer, a comer muito, eu não vomitava, eu não tinha falta de apetite. Aos poucos eu tenho recuperado o meu peso, mas a neurose continua na cabeça. Eu vejo revistas, vejo as roupas tão perfeitas nas modelos e quando vou experimentar, fica horrível no meu corpo. Ali tem photoshop, dentro da loja não tem.

A realidade é bem diferente do que está estampado em editoriais, tenho amigas aficcionadas por academia, neuróticas com o peso. Toda mulher tem essa neurose, nós sabemos. Mas a linha entre a neurose e a doença é bem tênue. Os efeitos colaterais são bem maiores do que os benefícios. Posso dizer que estou curada, não completamente, mas ainda tenho a maioria das consequências dominando o meu corpo. Sei que elas não vão me abandonar tão cedo, que quando eu comer mais do o necessário por pura gula, vou começar a espirrar, tossir, me sentir tonta e fraca, sei que as possibilidades de colocar o ingerido pra fora também serão grandes. Eu tive que passar a ter um controle muito maior sobre a minha saúde, dificilmente as pessoas entendem a quantidade de exames que eu faço, mas a minha saúde anda frágil, o meu psicológico não ajuda. A minha imunidade é uma tragédia, bate um vento e eu já estou gripada, quase morrendo. Eu continuo querendo corpo, pele, cabelo, unhas de editoriais, mas eu detonei tudo isso, eu não tenho um photoshop automático, hoje estou começando a entender isso.

Muitas celebridades que nem imaginamos também passam por esse mal, para elas é mais complicado ainda, elas estão com a mídia ali, sufocando, piorando a situação. O tratamento é lento e precisa de paz. As celebridades não conseguem essa calma necessária. Elas sofrem com imposições e cobranças de contratantes e público. A sociedade espera que elas mostrem aquela beleza idealizada, a beleza que faz mal.

A realidade é complicada, as consequência são muitas, os preconceitos maiores ainda. Bulimia dói e dói muito. Bulimia e anorexia matam. Passem longe desse mal.

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